A GALP JÁ OBTEVE 1.098
MILHÕES DE EUROS DE LUCROS EXTRAORDINÁRIOS SÓ DEVIDO AO
“EFEITO STOCK” RESULTANTE DA ESPECULAÇÃO DO PETRÓLEO
RESUMO DESTE ESTUDO
Nas últimas semanas,
o presidente da GALP desdobrou-se em declarações aos media procurando
branquear o comportamento das petrolíferas aos olhos dos portugueses.
“Não gosto que nos chamem ladrões” afirmou ele ao Expresso. Mas
como já tinha acontecido com a AdC e com o governo, fugiu aos principais
problemas e não esclareceu os portugueses sobre as causas internas
que estão a contribuir também para o aumento dos preços dos
combustíveis em Portugal. A sua preocupação foi justificar as petrolíferas
que continuaram a escalada de preços.
Assim, não explicou aos portugueses por que razão os preços sem impostos dos combustíveis em Portugal continuam a ser superiores aos preços médios sem impostos da União Europeia. Em Junho de 2008, segundo a Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia, o preço sem impostos em Portugal tanto da gasolina como do gasóleo era superior ao preço médio da UE15. Em relação à gasolina era superior em 0,6% e, relativamente ao gasóleo era superior em 1,9%. Se a comparação for feita por países, conclui-se que em relação à Alemanha, Áustria, Finlândia, França, Irlanda, Reino Unido e Suécia, o preço da gasolina sem impostos em Portugal era superior ao destes sete países entre 1,4% (Finlândia) e 16,9% (Irlanda), sendo superior ao da Alemanha e Suécia sem impostos em mais de 7%. Em relação ao gasóleo, e relativamente à Alemanha, Áustria, Finlândia, França, Irlanda, Inglaterra e Suécia, o preço do gasóleo sem impostos em Portugal era superior ao de qualquer um destes sete países entre 2% (França) e 21,1% (Irlanda), sendo superior ao preço sem impostos da Finlândia e Inglaterra em mais de 7%.
O presidente da GALP
também não explicou porque razão apesar do petróleo utilizado na
refinação dos combustíveis ser o adquirido 2 a 2,5 meses antes, portanto
a um preço mais baixo, na fixação do preço à saída do combustível
das refinarias as petrolíferas não consideram esse preço, ma sim
o preço do barril de petróleo registado uma semana antes, embolsando
desta forma lucros elevadíssimos à custa dos consumidores portugueses.
De acordo com dados da própria Direcção Geral de Energia do Ministério
da Economia, entre 28.12.2007 e 27.6.2008, o preço da gasolina em Portugal
aumentou 11,8%; o gasóleo rodoviário subiu 21,1%, e o preço do gasóleo
para aquecimento cresceu 30,7%, mas o preço do petróleo entre Dezembro
de 2007 e Abril de 2008 (é o petróleo adquirido em Abril que foi utilizado
na refinação dos combustíveis vendidos aos portugueses em Junho);
repetindo, entre Dezembro de 2007 e Abril de 2008, o preço do petróleo,
segundo a Direcção Geral da Energia subiu, em euros, apenas 9,1%,
portanto, muito menos que a subida verificada nos combustíveis em Portugal
(menos de metade da subida do gasóleo).
Esta diferença de preços
dá origem a um lucro extraordinário elevadíssimo, a que as petrolíferas
para ocultar designam pelo eufemismo “efeito stock”. E só no período
2004 a 2007, de acordo com as próprias contas da GALP, esta empresa
obteve um lucro extraordinário de 1.029 milhões de euros devido ao
“efeito stock”, ou seja, o lucro que resulta do facto de se verificar
no mercado internacional de petróleo uma grande especulação de que
as petrolíferas se aproveitam para vender aos portugueses os combustíveis
mais caros embolsando, desta forma, elevadíssimos lucros. E no 1º
Trimestre de 2008 o lucro extraordinário da GALP resultante do “efeito
stock” disparou para 69 milhões de euros, mais 228,6% do que idêntico
período de 2007, o que somados aos acumulados no período 2004-2007,
dá 1.098 milhões de euros.
Ora sobre tudo isto o
presidente da GALP nas suas múltiplas declarações não se referiu
nem deu explicações. Talvez convencido que é um direito intocável
das petrolíferas que não tem de prestar contas aos portugueses. É
sobre este lucros extraordinários injustos, que é necessário tomar
uma de duas medidas: ou obrigar as petrolíferas a baixar os preços
dos combustíveis ou então lançar um forte imposto, chame-se “taxa
de Robin dos Bosques” ou outro nome, para penalizar estes lucros que
têm apenas como origem a especulação verificada no mercado internacional
do petróleo, e que não resultam de qualquer esforço produtivo das
petrolíferas. As receitas obtidas poderiam ser aplicadas no apoio a
entidades como o “Banco Alimentar” e similares que forneceriam géneros
e refeições a portugueses com falta de recursos para se alimentarem,
já que a pobreza, devido à escalada de preços, ao aumento de desemprego
e à diminuição do poder de compra das remunerações e pensões,
está a aumentar em Portugal, consequência também do aumento dos preços
dos combustíveis que está afectar tudo de uma forma directa ou indirecta.
A pesada carga fiscal
que incide sobre os combustíveis em Portugal (na gasolina, em Portugal
os impostos representam 58% do preço de venda ao público, enquanto
na UE15 correspondem a 56%; em relação ao gasóleo, os impostos em
Portugal representam 43% do preço de venda, enquanto na UE15 representam
a 45% do preço); repetindo, a pesada carga fiscal que incide sobre
os combustíveis em Portugal associada à ausência total de qualquer
controlo sobre os preços, como ficou claro neste estudo, está a criar
uma situação económica e social insustentável.
O presidente da GALP;
Manuel Ferreira de Oliveira, desdobrou-se nas últimas semanas em declarações
aos órgão de informação (Expresso, Diário Económico, TVs) procurando
branquear o comportamento da petrolífera aos olhos dos consumidores
portugueses (“Não gosto que nos chamem ladrões” afirmou ele ao
Expresso de 28 de Junho). Mas quem tenha prestado atenção a essas
declarações rapidamente concluiu que muito ficou por explicar, nomeadamente
por que razão os preços dos combustíveis em Portugal, sem impostos,
continuam superiores à média comunitária e os elevadíssimos lucros
extraordinários obtidos pelas petrolíferas resultantes do chamado
“efeito stock”, o qual tem como origem o aproveitamento, por estas
empresas, da especulação a que está sujeito actualmente o petróleo.
São estes aspectos, que o presidente da GALP fugiu a abordar e não
esclareceu, que vamos analisar neste estudo utilizando apenas dados
oficiais da Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia e
da própria GALP.
OS PREÇOS EM PORTUGAL SEM IIMPOSTOS CONTINUAM SUPERIORES AOS PREÇOS
MÉDIOS DA UNIÃO
EUROPEIA
Os jornais portugueses
divulgaram que os salários dos trabalhadores portugueses têm perdido
poder de compra desde 2000, e que são os mais baixos (cerca de metade)
dos da UE15. No entanto, em Junho de 2008, Portugal era um dos países
dessa mesma UE15 onde os preços dos combustíveis, sem incluir
impostos, eram dos mais elevados como mostra o quadro seguinte construído
com dados da Direcção Geral de Energia do Ministério da Economia.
QUADRO I – Preço da gasolina e do gasóleo em Portugal e nos países da UE15 em Junho de 2008
| PAÍS | GASOLINA 95 | GASÓLEO RODOVIÁRIO | ||
| PST (preço s/ taxas) | PVP | PST (Preço sem taxas) | PVP | |
| Alemanha | 0,604 | 1,497 | 0,779 | 1,487 |
| Áustria | 0,614 | 1,319 | 0,778 | 1,397 |
| Bélgica | 0,671 | 1,542 | 0,830 | 1,389 |
| Dinamarca | 0,673 | 1,528 | 0,808 | 1,468 |
| Espanha | 0,656 | 1,234 | 0,810 | 1,300 |
| Finlândia | 0,638 | 1,525 | 0,748 | 1,315 |
| França | 0,628 | 1,476 | 0,788 | 1,454 |
| Grécia | 0,680 | 1,239 | 0,859 | 1,388 |
| Holanda | 0,728 | 1,658 | 0,818 | 1,426 |
| Irlanda | 0,554 | 1,206 | 0,663 | 1,248 |
| Itália | 0,683 | 1,496 | 0,819 | 1,490 |
| Luxemburgo | 0,665 | 1,296 | 0,807 | 1,275 |
| PORTUGAL | 0,648 | 1,489 | 0,803 | 1,413 |
| Reino Unido | 0,611 | 1,466 | 0,749 | 1,628 |
| Suécia | 0,602 | 1,460 | 0,770 | 1,518 |
| Média UE-15 | 0,644 | 1,429 | 0,789 | 1,413 |
| % PORTUGAL / EU15 | + 0,6% | + 4,2% | + 1,9% | 0,0% |
| FONTE: Direcção Geral de Energia - Ministério Economia | ||||
| PST - Preço Sem Taxas: PVP-Preço Venda ao Público | ||||
Em Junho de 2008, o preço
sem impostos em Portugal tanto da gasolina como do gasóleo era superior
ao preço médio da UE15. Assim, em relação à gasolina era superior
em 0,6% e, relativamente ao gasóleo o preço sem impostos em Portugal
era superior ao preço médio da UE15 em 1,9%.
Mas se a comparação
for feita por países as diferenças são muito maiores em relação
a vários países. Em Junho de 2008, o preço da gasolina 95 sem impostos
em Portugal era superior ao preço da Alemanha em 7,3%; ao da Áustria
em 5,5%; ao da Finlândia em 1,4%; ao da França em 3,2%; ao da Irlanda
em 16,9%; ao da Inglaterra em 5,9%; e ao preço da Suécia em 7,6%.
Também em Junho de 2008, o preço do gasóleo sem impostos em
Portugal era superior ao preço na Alemanha em 3,1%; na Áustria em
3,2%; na Finlândia em 7,5%; na França em 2%; na Irlanda em 21,1%;
na Inglaterra em 7,3%; e ao preço da Suécia em 4,4%. E isto apesar
dos salários em Portugal serem menos de metade dos desses países.
E foi também isto que o presidente da GALP fugiu a explicar e responder,
como já tinha acontecido com a AdC e com o governo .
O COMBUSTIVEL VENDIDO
EM CADA DIA EM PORTUGAL É PRODUZIDO COM PETRÓLEO ADQUIRIDO DOIS MESES
ANTES, O QUE GERA UM IMPORTANTE LUCRO EXTRAORDINÁRIO
Entre Dezembro de 2007
e Junho de 2008, o aumento dos preços dos combustíveis em Portugal
variou entre 11,8% (gasolina), 21,1% (gasóleo rodoviário) e 31,5%
(gasóleo colorido), como mostram os dados da Direcção Geral de Energia
do Ministério da Economia, constantes do quadro seguinte.
QUADRO II – Aumento dos preços dos combustíveis em Portugal entre Dez.2007 e Junho de 2008
| Unidade: Euros/litro | ||||
| DATA | Gasolina sem chumbo I.O.95 | Gasóleo Rodoviário | Gasóleo colorido e Marcado | Gasóleo de aquecimento |
| 28.12.2007 | 1,358 | 1,179 | 0,782 | 0,831 |
| 27.06.2008 | 1,518 | 1,428 | 1,028 | 1,086 |
| AUMENTO % | + 11,8% | + 21,1% | + 31,5% | + 30,7% |
FONTE: Direcção
Geral de Energia – Ministério da Economia
Entre 28.12.2007 e 27.6.2008,
o preço da gasolina em Portugal aumentou 11,8%; o gasóleo rodoviário
subiu 21,1%, o gasóleo colorido 31,5%, e o preço do gasóleo para
aquecimento 30,7%.
Mas apesar dos preços
dos combustíveis incorporarem a subida verificada no preço do barril
de petróleo verificada até à semana anterior, no entanto devido ao
sistema de fixação dos preços à saída da refinaria adoptada pelas
petrolíferas portuguesas ( o preço à saída da refinaria não tem
nada a ver com os custos suportados na sua refinação mais um margem
de lucro, mas é o preço que vigorou no mercado de Roterdão na semana
anterior); repetindo, apesar dos preços dos combustíveis vendidos
em Portugal incorporarem a especulação do preço do barril do petróleo
verificado no mercado internacional, no entanto esse combustível foi
produzido com petróleo adquirido dois a dois meses e meio antes, portanto
a um preço muito mais baixo. O quadro seguinte, construído com dados
também da Direcção Geral de Energia, mostra o aumento de preços
do petróleo consumido na produção dos combustíveis vendidos em Junho
de 2008 em Portugal.
QUADRO III – Aumento no preço do petróleo desde Dez2007, verificado no petróleo
utilizado na produção dos combustíveis vendidos em Junho de 2008
| DATA | Petróleo Brent |
| Euros/barril | |
| Dezembro 2007 | 62,46 |
| Jan-08 | 62,49 |
| Fev-08 | 64,45 |
| Mar-08 | 66,78 |
| Abril 2008 | 69,23 |
| AUMENTO Dezembro de 2007- Abril de 2008 | + 10,8% |
| Fonte: Direcção Geral de Energia - Ministério da Economia | |
Os combustíveis vendidos
em Junho de 2008 em Portugal foram obtidos com base na refinação de
petróleo adquirido 2 a 2,5 meses antes, ou seja, em Abril de 2008.
Entre Dezembro de 2007 e Abril de 2008, o preço do barril de petróleo
aumentou, em euros, 10,8% como mostram os dados da Direcção Geral
de Energia. Mas entre Dezembro de 2007 e Junho de 2008, o preço da
gasolina vendida em Portugal aumentou 11,8%, e o preço do gasóleo
rodoviário 21,1%. É evidente que esta situação, que resulta também
da especulação do petróleo verificada no mercado internacional, determinou,
para as petrolíferas portuguesas, um elevado lucro extraordinário,
o chamado “efeito stock”, que o presidente da GALP também não
explicou nem abordou nas entrevistas que deu aos órgãos de comunicação
social, como já tinha acontecido com a AdC e com o governo, embora
sabendo que era um questão fundamental que interessava esclarecer,
mas evidentemente não convinha.
EM APENAS 4 ANOS, A GALP OBTEVE UM LUCRO EXTRAORDINÁIO
DE
1029 MILHÕES DE EUROS
Como referimos em artigo anterior, no 1º Trimestre de 2008, a GALP, só devido ao “efeito stock”, o qual resulta do aproveitamento pelas petrolíferas da especulação que se verifica no mercado internacional do petróleo, obteve um lucro extraordinário que, segundo a própria GALP, atingiu 69 milhões de euros, o qual é superior em 228,6% ao obtido em idêntico período de 2007. Mas os lucros extraordinários obtidos pela GALP e por outras petrolíferas, devido ao “efeito stock”, não se limitaram apenas ao 1º Trimestre de 2008, ou mesmo a 2007. O quadro seguinte, construído com dados dos relatórios e contas da própria GALP, mostra que no período 2004-2007, a GALP obteve elevados lucros extraordinários superiores 1000 milhões de euros devido precisamente ao “efeito stock”.
QUADRO IV – Lucros extraordinários obtidos pela GALP devido apenas ao “efeito stock”
no período 2004- 1º Trimestre de 2008
| ANOS | Resultado Liquido Milhões de euros | Resultado Liquido sem o "efeito stock" Milhões de euros | LUCRO EXTRAORDINÁRIO resultante da especulação do petróleo (efeito stock) Milhões euros |
| 2004 | 453 | 346 | 107 |
| 2005 | 701 | 425 | 276 |
| 2006 | 755 | 468 | 287 |
| 2007 | 777 | 418 | 359 |
| SOMA (2004-2007) | 2.686 | 1.657 | 1.029 |
| Aumento 2004-2007 | 71,5% | 20,8% | 235,5% |
| 1ºTrim.2007 | 143 | 122 | 21 |
| 1ºTrim.2008 | 175 | 106 | 69 |
| Aumento 1T2008-1T2007 | 22,4% | -13,1% | 228,6% |
| SOMA (2004-1ºTim.2008) | 2.861 | 1.763 | 1.098 |
| FONTE : Relatório e Contas 2007; Resultados 1º Trimestre de 2008 - GALP ENERGIA | |||
Só no período 2004
a 2007, a GALP obteve um lucro extraordinário de 1.029 milhões de
euros devido ao “efeito stock”, ou seja, um lucro que resultou
do facto de se verificar no mercado internacional de petróleo uma elevada
especulação que esta petrolífera se aproveitou para vender
aos portugueses os combustíveis mais caros embolsando, desta forma,
elevadíssimos lucros que resultaram apenas dessa especulação. Se
adicionarmos os lucros referentes ao 1º Trimestre de 2008 devido ao
“efeito stock”– 69 milhões de euros – aos obtidos no período
2004-2007 obtêm-se 1.098 milhões de euros. É em relação a este
lucro extraordinário que interessa adoptar rapidamente uma das duas
medidas seguintes: ou obrigar as petrolíferas reduzir os preços dos
combustíveis proibindo-as de tirar proveito da especulação que impera
no mercado internacional do petróleo; ou então lançar um forte imposto,
chame-se “taxa de Robin dos Bosques” ou tenha outra designação,
para penalizar estes lucros que têm apenas como origem a especulação
verificada no mercado internacional de petróleo, e que não resultam
de qualquer esforço produtivo da empresa. As receitas assim obtidas
poderiam ser aplicadas, por ex., no fornecimento de géneros e refeições
a famílias que vivem em condições de vida difíceis utilizando para
isso entidades como o “Banco alimentar” e outras similares, já
que a pobreza, devido à escalada de preços, ao aumento de desemprego
e à redução das remunerações e pensões reais, consequência também
da subida dos preços dos combustíveis que está a determinar, de uma
forma directa ou indirecta, o aumento dos preços de quase todos os
bens e serviços; repetindo, já que a pobreza, como consequência de
tudo isto, está a aumentar em Portugal. O futuro dirá aos portugueses
se este governo vai mais uma vez ceder ao poder dos grandes grupos económicos
adiando e não lançando qualquer imposto ou fixando apenas um imposto
simbólico sem qualquer impacto, para depois o poder utilizar na sua
propaganda.
Eugénio Rosa
Economista
6.7.2008