Qual deficit?
No melhor dos Mundos os programas dos governos são sufragados, a imprensa publica sem passar pelo "Exame Prévio", as posições políticas assumidas por cada um não constituem motivo de prisão. Mas fica sempre este amargo de boca que as receitas se repetem, as promessas eleitorais funcionam como engodo aos incautos e os probelmas agravam-se duma legislatura para a seguinte.
Os políticos que grangeam responsabilidades no Poder Democrático porque os eleitores acreditaram neles, no dia seguinte podem ver-se acobardados por trás de funcionários não eleitos: Governador do Banco de Portugal, Procurador Geral da República, outros de várias instituições europeias mais obscuras mas que detêm o poder de elevar as taxas de juro e sacrificar duma penada toda a qualidade de vida dos portugueses.
A ausência de Censura há muito que demonstrou não ser razão suficiente para garantir uma Imprensa de qualidade. Será, quando muito, uma condição necessária para o trabalho dos jornalistas, tal como a caneta e o papel, mas de nada vale para o que sai escrito. A dívida do Sistema Nacional de Saúde à Associação Nacional de Farmácias vai crescendo sem fim à vista e o governo continua cada vez mais prostado a seus pés. A Imprensa tem aqui um amplo campo de investigação sobre o desvirtuamento da gestão dos bens públicos, mas não se vê nada de substantivo. A Ordem dos Médicos vai mantendo o país no garrote da falta de médicos, por condições de "Numeros Clausus" medievais, mas não se vê a Imprensa a despertar a consciência pública para os meandros precisos destes mecanismos. O "Quarto Poder" demitiu-se, eclipsou-se. Ou melhor, mudou de campo. Está às ordens das "exigências do Mercado": e fundiu-se com os outros.
Que leva sucessivos governos a prostarem-se perante ditames de terceiros que não os elegeram, deitando pela borda fora os problemas daqueles que os elegeram?
Talvez não seja participação democrática suficiente a colocação de um voto na urna uma vez cada quatro anos.
Talvez estejamos a depositar demasiadas espectativas em pessoas que não têm capacidade para assumir responsabilidades.
Talvez estejamos iludidos quanto ao alcance real da Imprensa como forma complementar do Poder Democrático.
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Talvez o verdadeiro deficit não seja orçamental, mas cultural.



4 Comentários:
Elementar
Contundente
Elegante
Brilhante
:))
Tenho que recomendar este texto lá na minha "chafarica".
Um abraço
espumante
Obrigado pela tua visita. Ultimamente tenho sentido algo estranho: de cada vez que um ministro abre a boca, sinto que nos andam a tomar por parvos. Não haverá mesmo gente melhor preparada para a arte das SOMAS e SUBTRACÇÔES? Já nem falo das multiplicações e outras operações mais exóticas.
Volta sempre, e um abraço.
Para observar o problema de falta de cultura basta vermos a evolução da qualidade dos programas televisivos nos últimos anos.
Mas quanto à "arte" dos ministros, ela não está nas somas e subtracções, está sim nas previsões da evolução dos gastos e das receitas dos anos seguintes, e como qualquer previsão temos que contar com uma margem de erro. Estranhamente o erro de previsão, que pode ser quantificado com dados do passado, nunca aparece na comunicação. Eu suspeito que o erro seja quase tão grande como o próprio défice (pelo menos no passado foi assim).
Por outro lado, para que não haja "magia" nestas previsões, é nessesário que a fórmula de cálculo destas previsões se mantenha constante ao longo dos anos e seja bem conhecida. Mas claro que o poder político não está interessado em tornar transparente estes mecanismos porque pelo simples facto de que eles reduzem a "margem de manobra" para a manuipulação da opinião pública.
Enfim, isso seria quase tão grave como pedir aos políticos que mantenham os seus objectivos independentemente de estarem no governo ou não...
Lúcio
Não temos a audiência do "Expresso" ou de outros orgãos bem-pensantes, mas por algum lado podemos começar. E esta de publicar os erros das previsões do Banco de Portugal parece-me uma excelente idéia.
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